Construtoras adaptam rotinas em canteiros com chegada de El Niño

Empresas do setor acompanham mais de perto previsão do tempo e antecipam etapas de obras para prevenir problemas

 

O El Niño está levando construtoras a antecipar etapas de obras, acompanhar mais de perto a previsão do tempo e adaptar a rotina dos canteiros pelo Brasil. Segundo órgãos federais de meteorologia e monitoramento, existe mais de 90% de probabilidade de o fenômeno atingir intensidade muito forte entre setembro e novembro. Confirmado em junho, o El Niño deve permanecer pelo menos até o começo de 2027, de acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET).

Para o setor, as mudanças do clima podem atrapalhar tanto atividades que precisam de tempo seco quanto aquelas realizadas em áreas expostas à chuva. O Sindicato da Indústria da Construção (Sinduscon-RJ) afirma que chuvas intensas e ventos fortes podem interromper diretamente os trabalhos. Em empreendimentos residenciais, determinados serviços podem ser suspensos.

“O risco climático precisa ser tratado como uma questão econômica do projeto, capaz de afetar custos.” — Manuel Reis Martins

Mas a principal preocupação deve surgir antes mesmo de a obra começar, diz o engenheiro Manuel Carlos Reis Martins, coordenador-executivo da Fundação Vanzolini, órgão do Departamento de Engenharia de Produção da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP). O risco climático, diz ele, precisa ser tratado como uma questão econômica do empreendimento, capaz de afetar custos de operação e manutenção, segurança e até o valor do imóvel.

Martins afirma que essa avaliação deveria começar na escolha do terreno e continuar durante o projeto, construção e manutenção do imóvel. “A gente historicamente dimensiona os projetos com base em dados climáticos históricos”, afirma.

 

Segundo estudo do Instituto Internacional para Sustentabilidade (IIS), os danos causados por eventos climáticos extremos podem chegar a R$ 18 bilhões por ano em cerca de 300 obras de infraestrutura. O levantamento considera rodovias, portos, estruturas de abastecimento de água, geração de energia elétrica e irrigação.

Para Martins, o problema é que um edifício pode permanecer em uso por 50 a 100 anos, enquanto as informações sobre o clima usadas para projetá-lo são baseadas principalmente no passado. Significa que uma construção planejada para as condições climáticas de hoje pode enfrentar um cenário diferente.

O especialista defende que a escolha do terreno é uma das primeiras decisões nesse processo. Segundo ele, tomar essas decisões antecipadamente tende a ser mais barato do que adaptar o empreendimento depois de pronto.

Entre as medidas de solução estão aumentar as áreas onde a água da chuva consegue penetrar no solo, melhorar os sistemas de escoamento, criar estruturas para armazenar e reaproveitar água da chuva e melhorar o isolamento térmico e o consumo de energia dos imóveis.

Algumas dessas medidas já são adotadas pelas empresas. Na construtora Tenda, por exemplo, o clima passou a ser considerado um fator relevante, ao lado de custo, prazo e mão de obra. Segundo a diretora de relações institucionais, Daniela Ferrari, a companhia antecipa etapas mais sensíveis às chuvas e aumenta a produção industrializada da Alea, sua marca de construção off-site fora do ambiente de obra. Cerca de 60% de cada residência da Alea é produzida em uma fábrica, o que reduz a exposição da construção ao mau tempo e torna o cronograma mais previsível. Entre Tenda e Alea, são mais de 80 obras em andamento.

A adaptação também aparece no projeto dos empreendimentos. Tenda e Alea incorporam soluções para melhorar o conforto térmico, aumentar a presença de vegetação e facilitar a absorção da água pelo solo e reduzir o gasto de energia. Segundo Ferrari, alguma dessas soluções podem reduzir despesas ao longo da vida útil dos imóveis.

 

Na Árbore Engenharia, a preparação está mais concentrada na rotina dos canteiros. A construtora, que mantém 34 obras ativas nas regiões Sudeste, Sul e Nordeste, passou a antecipar determinados serviços antes dos períodos mais chuvosos e reforçou o acompanhamento da previsão do tempo. Em dias de alerta para ventos fortes, a companhia concentra atenção em materiais soltos, telas de fachada, andaimes, trabalhos em altura e guindastes.

Segundo o diretor-geral da companhia, César Silveira, um canteiro produz em média cerca de 5% do total previsto para a obra a cada mês. Em um cenário de cinco dias sem atividade, a perda pode chegar a aproximadamente 1,5% da produção mensal. “A gente produz em torno de 5% ao mês. Então, se você tem cinco dias improdutivos no mês, você perde em torno de 1,5% da sua produção”, afirma. A construtora ressalta que se trata de uma estimativa e que o impacto varia conforme a obra e a quantidade de dias parados.

A Árbore avalia que o clima também pode encarecer os seguros das obras. Silveira diz que o aumento da frequência de acidentes e danos provocados pelo clima pode levar as seguradoras a rever preços e condições das apólices. Se uma obra for prolongada por paralisações, por exemplo, o período de cobertura do seguro também pode aumentar.

 

O seguro que cobre danos à construção e a responsabilidade por eventuais prejuízos a terceiros custa, em média, de 0,1% a 0,3% do valor total da obra. Segundo a Mutuus, corretora de seguros corporativos comprada pela fintech Asaas dos irmãos Piero e Diego Contezini, para uma reforma de R$ 400 mil, o seguro pode custar cerca de R$ 800.

Para Martins, da Fundação Vanzolini, embora a construção civil tenha avançado na redução dos impactos ambientais, o setor ainda está no início da adaptação necessária para garantir que os edifícios continuem funcionando diante de um clima mais instável.

 

Fonte: Valor Econômico

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